28/01/2020 às 22h12min - Atualizada em 28/01/2020 às 22h12min

CATÁSTROFE ANUNCIADA? Por Gabriel Resgala

Gabriel Resgala
CATÁSTROFE ANUNCIADA?... Na manhã de quinta-feira, dia 22/01, foram realizadas reuniões com alguns funcionários públicos de Carangola, principalmente diretores de escolas e creches, visando à preparação para uma possível “catástrofe” que estaria para ocorrer a partir do dia seguinte. O objetivo: organizar os locais de risco para que não houvesse grande prejuízo material, e disponibilizar as escolas fora de risco para possível abrigo de desalojados. Nessa reunião, foi dito que as informações vinham de órgãos do governo federal, em Brasília, e do estadual, em BH. Exibiram inclusive um vídeo protagonizado pelo governador do estado. Segundo o relato de uma participante, “eles usaram o termo catástrofe, e eu fiquei assustada porque eles em geral são muito cautelosos em usar esse termo”. As professoras que participaram da reunião, alarmadas, começaram a difundir essas informações via WhatsApp, até mesmo para se organizarem. Em um dos áudios enviados, uma pessoa informava os locais que serviriam como “quartel general”, citando as escolas localizadas nos locais mais altos da cidade. E, abalada, alertava: “não é nem enchente e nem tempestade: é catástrofe”. Provavelmente, o que ela estava querendo dizer é que não seria um evento costumeiro, como as chuvas e enchentes que de vez em quando assolam a cidade (e com as quais, por assim dizer, já estamos “acostumados”). Mas esses áudios, obviamente, viralizaram, e causaram temor pelo fato de não ser explicado muito bem o que estava vindo, qual a natureza da tal “catástrofe”. Então as pessoas pesquisaram na internet, e viram que estava se formando um ciclone no litoral, não muito distante daqui, podendo causar tempestades. Era o ingrediente que faltava para a confusão generalizada. O diretor da Defesa Civil da cidade, porém, gravou um vídeo desmentindo as informações, dizendo que estava tudo sob controle. Por volta das 14h, ele e outros representantes do poder público deram uma entrevista a uma rádio local visando dar um esclarecimento detalhado da situação. Mas eles foram além de desmentir a história do ciclone, e também condenaram fortemente qualquer uso do termo “catástrofe”. Nas palavras do secretário de governo municipal: “Há sim a possibilidade de chuva, pode chegar a até 100 mm, mas ela pode ser leve, como está hoje durante o dia, está chovendo fraco. Então não há tornado, não há ciclone, não há situação de catástrofe. Não há situação, no momento, de risco algum. [...] Como representante da prefeitura municipal, venho aqui tranquilizar a população de toda a região. Isso é uma fakenews. Há pessoas programadas e incitadas a plantar o caos, o medo e o desespero na população. [...] Durante todo o dia, não tivemos uma chuva de nível alto, então a nossa projeção é de que ela continue dessa forma.” Disseram que quem estava divulgando aquelas informações nas redes sociais poderia ser até criminalizado. Ao final da entrevista, o diretor da Defesa Civil foi perguntado sobre quais seriam as áreas de risco da cidade, caso as previsões otimistas não se concretizassem. Citou então os bairros mais altos da cidade, provavelmente imaginando que o risco maior seria de desabamentos de encostas – que, em geral, costumam ser mais raros em Carangola do que enchentes. A entrevista foi filmada, e as informações rapidamente chegaram à população, que se tranquilizou e achou que teria mais uma história engraçada pra contar. No dia seguinte, tivemos uma das maiores enchentes da história da cidade, por muitos considerada como a pior catástrofe da história do município. Custou-nos ao menos uma vida, milhares de desalojados, e praticamente a destruição do comércio da cidade. Certamente houve uma falha grave de comunicação, em algum lugar. É difícil julgar, sem saber o que ocorreu internamente; mas esperamos que o Ministério Público faça esse papel com a devida seriedade. É fato que alguém, por algum motivo, não levou a sério o aviso dos governos federal e estadual, e achou que o melhor a fazer era tentar evitar o pânico. Uma decisão catastrófica, que provavelmente colaborou para que os estragos fossem bem maiores. A tal história da “catástrofe” não era fakenews, tampouco coisa de gente “programada a incitar o caos”. Era um alarme verdadeiro, dado com mais de 24h de antecedência. Uma população em desespero é ruim; mas, nessa situação específica, quem dera se tivéssemos nos desesperado um pouquinho, levado a sério o tal alarme. Se a verdade tivesse vindo à tona antes, talvez o prejuízo tivesse sido bem menor...
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